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Assuntos diversos

20 ANOS SEM BETINHO: uma pessoa chamada solidariedade

Neste 09 de agosto, a ANABB relembra a história de Betinho que morreu há 20 anos


Em 09.08.2017 às 16:23 Compartilhe:

Quando falamos em luta contra a fome e a miséria, o nome Betinho vem logo em nossa memória. Isso porque o sociólogo foi um dos brasileiros que mais se dedicou a essa nobre causa. A ANABB, que tem uma história de parceria com sua solidariedade, não poderia deixar de registrar hoje, 09 de agosto, a passagem dos 20 anos em que Betinho partiu deste mundo.  

Herbert de Souza, o Betinho, na verdade, se transformou no maior símbolo da luta contra a fome, desde que lançou a Campanha Ação da Cidadania Contra a Miséria e pela Vida. Ele foi grande ativista dos direitos humanos e defensor da democracia e da participação social. Em uma entrevista dada ao Jornal Ação de dezembro de 1993, o sociólogo comentou: “Hoje, descobrimos que as mudanças estruturais fazem parte de um processo. Elas podem se dar na construção da cidadania”.

Uma vida em defesa do interesse coletivo
Betinho nasceu em 3 de novembro de 1935, em Bocaiúva, Minas Gerais, sendo o terceiro de nove irmãos. Sua vida foi marcada por situações extremas. Betinho nasceu hemofílico, bem como seus irmãos, o músico Chico Mário e o cartunista Henfil, o que o levou a fazer transfusões de sangue por toda a vida. Teve tuberculose aos 15 anos que o deixou três anos isolado em um quarto. 

Ao voltar à escola, Betinho integrou-se ao movimento estudantil, em Belo Horizonte. Graduou-se em Sociologia na UFMG e fundou a Ação Popular (AP), onde coordenou até 1964. Ele lutou ativamente contra a ditadura, após o golpe militar de 1964, exilou-se no Chile em 1971 e morou ainda no Canadá e no México. Após a anistia, voltou ao Brasil em 1979. Logo depois, em 1981, fundou com economistas, o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), com dedicação à análise das realidades sociais, econômicas e políticas do país. Nessa época, foi um dos principais articuladores da luta pela reforma agrária. 

Betinho descobriu que ele e seus irmãos hemofílicos haviam contraído o vírus da AIDS em 1986, devido à falta de controle da qualidade do sangue nas transfusões que tinham de fazer. Os irmãos morreram da doença em 1988, em um intervalo de apenas três meses. Por tudo isso, Betinho abraçou uma nova bandeira, fundando a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (Abia). 

Com seu ímpeto social, Betinho também foi um dos articuladores do evento “Brasil, Terra e Democracia”, em defesa da reforma agrária e do meio ambiente, com mobilização de milhares de pessoas no Rio de Janeiro. Em 1991, a ONU concedeu a ele o Prêmio Global 500, por suas campanhas em defesa da Amazônia e da Baía de Guanabara. No ano seguinte, Betinho entra no Movimento pela Ética na Política, que reuniu diversos segmentos da sociedade brasileira. 

Foco na cidadania
Foi em 1993 que Betinho fundou o movimento “Ação da Cidadania contra a Fome e a Miséria e pela Vida”, que lutava no combate à fome de 32 milhões de brasileiros na época, que levaram o Brasil a entrar no Mapa da Fome, levantado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Vale destacar que o país só saiu do Mapa da Fome em 2014, mas corre o risco de retornar, segundo relatório Luz da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável. 

A campanha de Betinho contra a fome e a miséria lhe rendeu uma indicação ao Prêmio Nobel da Paz em 1994. Isso porque a campanha que parecia fadada a ser apenas mais uma, conquistou vários segmentos da sociedade civil, como empresas públicas e privadas, entidades de classe, associações, imprensa e muito mais. Toda a sociedade foi sensibilizada e passou a apoiar a iniciativa do sociólogo. 

A ANABB foi uma das instituições que acreditou e apoiou o movimento de Betinho e a criação e manutenção de comitês por todo o Brasil desde o início. No recém premiado filme Betinho – A Esperança Equilibrista, existe um trecho em que Betinho faz menção ao Prêmio Cidadania, instituído pela Associação em 1995. “A iniciativa da ANABB em criar o Prêmio Cidadania é um sucesso. Já premiamos tudo nessa vida. Agora estamos premiando cidadania”. 

Douglas Scortegagna, vice-presidente de Comunicação da ANABB e presidente do Instituto VIVA CIDADANIA lembra que a Associação participou ativamente da campanha de Betinho, desde 1993, quando, com a criação do programa “Brasil Sem Fome” envolveu os funcionários do BB que montaram os comitês de cidadania. A ANABB participou ainda da distribuição de 300 mil camisetas com o slogan da campanha de Betinho, vendidas pelos comitês. O dinheiro arrecadado foi reinvestido em projetos de combate à fome e à pobreza. Douglas disse que, “naquela época, os funcionários do Banco do Brasil criaram, em menos de 90 dias, cerca de 2.700 comitês da cidadania nas agências do BB pelo país”. 

Na entrevista ao Jornal Ação, Betinho também enfatizou a participação dos funcionários do BB na Campanha. “A atuação dos funcionários do Banco do Brasil sempre mereceu destaque de minha parte. Desde o primeiro momento, descobri no BB um espírito de cidadania sem par. Para mim, esse espírito é a corporificação da função social do Banco. Quando vejo os milhares de funcionários do Banco se mobilizando, imagino que isto tem a ver com uma indignação, alvo de crítica ao modelo estabelecido, que favorece os ricos e piora a situação dos pobres”, disse Betinho. 

A iniciativa do programa Brasil sem Fome transformou-se no ANABB Cidadania, em 2007, e no Instituto VIVA CIDADANIA (IVC), em 2013, que, juntos, realizaram seis versões da premiação a projetos sociais bem sucedidos. A Associação também foi uma das patrocinadoras do livro Ação da Cidadania – 20 anos, idealizado por Daniel de Souza, filho de Betinho e do premiado filme Betinho – A Esperança Equilibrista.

A diretora de Projetos do IVC e vice-presidente Administrativa e Financeira da ANABB, Graça Machado, ressalta a importância de Betinho para aquele momento do país e que se reflete nas lembranças dos dias atuais. “As ações propostas por Betinho naquele momento, continuam atual, por isso ele é lembrado. Os Comitês de Cidadania do BB que ainda estão inseridos nas comunidades, mobilizam as pessoas para solucionar os problemas, sem ficar esperando que o governo resolva tudo, agindo conforme ele pensava”, disse.

Segundo Herbert de Souza, a Ação da Cidadania conseguiu reunir pessoas das mais diferentes origens políticas, ideológicas, sociais e econômicas. Ele observou que “há comitês formados por igrejas que jamais conversaram entre si, correntes sindicais antagônicas estão na mesma linha de frente, partidos concorrentes se unem. A solidariedade, antes teórica, passa a ser praticada”. 

Betinho faz muita falta agora quando o país está vivendo novamente uma situação crítica em relação à fome e a miséria. Que ele sirva de exemplo para que se levante muitos outros brasileiros dispostos a dedicar tempo à luta contra esse mal. 

Fonte: Agência ANABB