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Assuntos diversos

Preço dos serviços castiga brasileiros

Do corte de cabelo ao almoço, tudo está mais caro. Em um ano, a inflação do setor subiu para 8,66%.


Em 13.03.2013 às 00:00 Compartilhe:


O brasileiro está desembolsando bem mais para fazer tarefas simples, como cortar o cabelo, ir à manicure ou comer fora de casa. E está aí um dos maiores desafios da equipe econômica da presidente Dilma Rousseff na missão de retomar o crescimento econômico em 2013. Diante do dilema entre manter o encarecimento do custo de vida em rédea curta - o que significaria aumentar os juros já em abril - ou aceitar conviver com um desconforto maior dos preços, a única certeza do governo é que não será fácil controlar a inflação dos serviços. No acumulado de 12 meses até fevereiro, a taxa do setor saltou para 8,66%.

Em muitos casos, os custos são tão elevados que, mesmo quem deveria se beneficiar com isso, reclama da falta de clientes. "Não tenho opção. Ou aumento o preço para cobrir os gastos, ou fico no prejuízo", contou a cabeleireira Geralda Fonseca, 58 anos, proprietária de um salão de beleza na Asa Norte. Nos últimos seis meses, ela reajustou alguns serviços em até 66%. É o caso do corte de cabelo, que custava a partir de R$ 12 e, hoje, não sai por menos de R$ 20. Como consequência, o movimento de fregueses minguou. "Se antes eu recebia entre 10 e 12 pessoas por dia, agora esse número chega a sete", contou.

Segundo especialistas consultados pelo Correio, conter essa disparada por meio de política monetária só é possível com uma alta pesada de juros. "Seria preciso tirar a Selic dos 7,25% ao ano para 10%", observou André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos. "Mas essa não é uma hipótese razoável, uma vez que, de forma alguma, o governo aceitaria uma alta como essa", complementou o economista sênior do Espírito Santo Investiment Bank, Flávio Serrano.

O governo entende que essa alta da inflação de serviços é consequência da melhor situação econômica que o país vive atualmente. "A renda do trabalhador aumentou bastante nos últimos 10 anos. É natural que haja mais gente demandando serviços", disse, ao Correio, uma fonte da equipe econômica de Dilma. "Na verdade, essa situação é fruto de uma transformação bem maior pela qual passou o Brasil. São mais de 40 milhões de pessoas que deixaram a condição de pobreza e que agora estão consumindo bastante", ressaltou.

Diante dessa massa de novos compradores, os empresários fazem a festa. Paulo Augusto São José, 29 anos, proprietário de uma oficina mecânica na Asa Norte, traçou inclusive uma estratégia para não afugentar a clientela, como aconteceu com Geralda Fonseca. "Tento aumentar os preços gradativamente." Ele mesmo tem sofrido com os pesados reajustes dos fornecedores. "Chego a gastar de R$ 5 mil a R$ 10 mil só com peças todos os meses", calculou. "Aí não tem jeito, tenho de repassar ao cliente", emendou.

No lado mais fraco dessa equação, o estudante Lucas Dayrell de Almeida, 24 anos, diz que tem feito malabarismos com o orçamento doméstico para dar conta da alta de preços. Só com a empregada, ele e o irmão chegam a gastar até 30% do que ganham juntos por mês. "É o preço a ser pago por passar o dia fora de casa", contou, resignado.

Trabalho
O próprio governo admite que essa situação está longe de ser confortável. Em viagem a Varsóvia, na Polônia, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, sintetizou o que o mercado já vem repetindo há meses: "A inflação de serviços tem caído de forma muito, muito lenta." Na verdade, em fevereiro ela foi maior que no mês anterior e a tendência tem sido claramente de alta.

Para a economista Zeina Latif, sócia da Gibraltar Consulting, isso se deve, em grande parte, ao maior fôlego do mercado de trabalho, que permaneceu fortalecido mesmo durante as seguidas crises econômicas que o país viveu nos últimos anos. "Como você não importa profissionais com tanta facilidade como produtos, o que acontece é que o empresário vai repassar o custo maior com os salários para os preços dos serviços", avaliou.

Além disso, há também o peso da carestia de outros produtos que interferem no custo dos serviços, como lembra a empresária Euzamar Dourado, 35 anos, dona de um restaurante. "Tudo tem aumentado de preços ultimamente, do feijão ao gás." Para não perder dinheiro, ela não viu outra saída senão aumentar os preços. "Só para repor o estoque, gasto, por semana, cerca de R$ 4 mil. E o lucro é baixo."

Fonte: Correio Braziliense