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Assuntos diversos

BB corta tarifas e Caixa é a próxima

A expectativa é que o ganho de escala neutralize já nos próximos meses o impacto da redução das tarifas


Em 09.10.2012 às 00:00 Compartilhe:


Por Murilo Rodrigues Alves, Cristiano Romero e Carolina Mandl | De Brasília e São Paulo

O BANCO DO BRASIL (BB) reduziu ontem, em até 34%, o custo de tarifas cobradas de clientes pessoas físicas. As novas tarifas entrarão em vigor no próximo dia 15. Os cortes beneficiarão os serviços mais utilizados pelos clientes. Em comunicado à imprensa, o BB revelou que a redução abrange sete pacotes de serviços e 24 tarifas prioritárias.

Antecipado pelo Valor, o corte de tarifas faz parte do esforço do governo para reduzir o custo financeiro no país. Num primeiro momento, forçados pela queda da taxa básica de juros (Selic), os bancos estatais lideraram a diminuição dos spreads bancários, forçando as instituições privadas a seguirem o mesmo caminho. Agora, o governo acredita que, com a decisão do BB de cortar tarifas, o banco estatal vai se tornar mais competitivo e, por isso, obrigará os privados a também reduzirem tarifas.

Até amanhã, a Caixa Econômica Federal deve seguir o mesmo caminho do BB, segundo Márcio Percival, vice-presidente de finanças da Caixa. O banco vai anunciar cortes nos preços do pacote de serviços básicos, nas tarifas de transferência eletrônica de recursos e de saques, por exemplo.

O anúncio do BB provocou imediata reação negativa dos investidores, que derrubaram o preço de suas ações, enquanto analistas calculavam o impacto sobre o resultado do banco. A Caixa não tem ação em bolsa.

O vice-presidente de negócios e varejo do BB, Alexandre Abreu, disse que a redução de tarifas não deve impactar significativamente o resultado do banco neste trimestre. "A redução será compensada com mais utilização dos serviços e maior número de clientes."

Os 24 pacotes prioritários, cujas tarifas tiveram redução de até 34%, são os seguintes: contas de depósito, cheque, saques, depósitos, consultas, transferências, transferências por TED/DOC e entre contas na própria instituição, ordens de crédito e cartões de crédito. O custo do pacote padronizado (conjunto de serviços exigido pelo Banco Central), por exemplo, cairá de R$ 13,50 para R$ 9,90. Esse pacote inclui cadastro, oito saques por mês, quatro extratos do mês corrente, dois extratos do mês anterior e quatro transferências por mês entre contas do mesmo banco. Segundo Alexandre Abreu, a nova tarifa será a menor do mercado.

O BB também vai isentar os novos clientes da tarifa de cadastro para início de relacionamento, que hoje é de R$ 30. O custo do portfólio de pacotes de serviços do BB passa a variar de R$ 3,80 (Universitário) a R$ 38,00 (Private e Bom Para Todos Pleno, por exemplo). Atualmente, a tarifa mais cara é do Private (R$ 49,90).

A expectativa do BB é que o ganho de escala, especialmente em relação ao pacote básico, neutralize já nos próximos meses o impacto da redução das tarifas. Segundo Abreu, as tarifas, incluindo as de fundos e seguros, correspondem a 27% do resultado do banco, sendo que as tarifas de serviços cobradas em conta corrente equivalem a 17% de todas as tarifas.

"O impacto [do corte] não é tão significativo em termos de resultado para o banco e, sim, em termos de abrangência. Para o cliente, o impacto é grande", afirmou. Algumas das tarifas do banco eram superiores às de bancos privados. "É um posicionamento de um banco que quer estar na vanguarda em termos de preços, tanto em tarifas como em juros", disse.

Abreu explicou que o banco está seguindo a mesma lógica do movimento de cortes nas taxas de juros. Quando o governo pressionou os bancos para abaixar os juros, o BB foi o primeiro, no dia 4 de abril, a anunciar as reduções. Em seguida, foi seguindo pelos demais.

O banco estima que, desde maio, quando o mercado começou a reduzir os spreads bancários, pressionado pela queda da Selic, conquistou mais de três milhões de clientes. Nessa conta estão incluídos clientes que já eram do banco, mas não estavam movimentando a conta. A redução média de juros promovida pelo BB, desde maio, foi de 25%.

Para Abreu, o mercado bancário entrou numa nova fase de competição. "A busca pela eficiência vai ditar os preços de cada um." Ele não descarta novos cortes nas tarifas do próprio banco no futuro. "No momento atual, ponderando o benefício para o cliente e a capacidade de absorção, é o que conseguimos fazer. Futuramente, com novos ganhos de escala, podemos ter novas reduções", informou.

Sobre a interferência do governo no banco - a redução das tarifas foi negociada com o Ministério da Fazenda -, o vice-presidente respondeu que essa decisão seguiu uma "oportunidade mercadológica". "Um posicionamento dessa natureza, benfeito e sustentável, vai gerar valor para o acionista tanto agora como no futuro", sustentou.

No fim de setembro, depois que reportagem do Valor informou que o banco promoveria a redução das tarifas, as ações do BB caíram 3,87%. Ontem, a ação do BB voltou a cair, desta vez, 2,98%, passando a valer R$ 22,80. Foi a maior baixa do índice Bovespa.

Como os cortes da Caixa ainda estão na fase final de elaboração, Márcio Percival não detalhou quantas tarifas serão afetadas nem os descontos que serão aplicados. "Nas tarifas que exigem menores custos, podemos baixar o preço. Alguns avanços tecnológicos que fizemos permitem essa redução agora." Questionado sobre o impacto do desconto no lucro líquido do banco, Percival afirma que espera ganhar no volume de clientes atendidos.

Estimativas feitas pelo Goldman Sachs não corroboram a avaliação dos dois executivos. Os analistas do banco calculam que, no ano que vem, o resultado do BANCO DO BRASIL pode encolher até 6,6%, dependendo do desconto médio aplicado nas tarifas. Esse valor não foi informado pelo banco. Se a redução for de 10%, a queda do lucro seria 2,2% em 2013. Caso alcance 30% - percentual aplicado a algumas tarifas -, a diminuição poderia chegar a 6,6%.

Para chegar a esses números, o Goldman Sachs considerou que a receita de tarifas de conta corrente ficará estável ao longo dos próximos trimestres em R$ 1,1 bilhão, o que representa 20% dos ganhos totais com tarifas.

Para os analistas, o crescimento de volume de tarifas não é algo fácil de ser alcançado. "Não acreditamos que esses serviços sejam particularmente elásticos."

Fonte: Valor Econômico