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Assuntos diversos

Brasil recebe proposta de criação de agência de rating

Mercado é dominado atualmente pelas americanas Fitch, Standard & Poor"s e Moody"s


Em 04.10.2012 às 00:00 Compartilhe:


A organização alemã Fundação Bertelsmann apresentará em 19 de outubro ao Ministério da Fazenda e à chancelaria brasileira proposta para a criação de uma agência de risco internacional independente e sem fins lucrativos, com o objetivo de levar mais competição a esse mercado, atualmente dominado pelas americanas Fitch, Standard & Poor"s e Moody"s.

A proposta do "think tank" (organização de pesquisas) alemão é que governos do G-20 levantem US$ 400 milhões para a agência, cujo projeto já foi apresentado ao Tesouro americano, à Securities and Exchange Comission (SEC), ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e à Comissão Europeia.

O Brasil será o primeiro país emergente a receber o plano - lançado em abril - que também será levado à China no ano que vem, após a transição de governo nesse país. Annette Heuser, diretora-executiva da Bertelsmann nos Estados Unidos, acredita que o G-20 seja o ambiente mais adequado para a criação da agência. Nesse contexto, ela endossa a importância do Brasil e da participação dos emergentes no financiamento do projeto.

"Aparecemos com essa proposta alternativa, porque por muitos anos os países não têm ficado satisfeitos com a falta de transparência, competição e qualidade no que se refere a ratings de dívida soberana", disse Heuser em entrevista ao Valor. "Por essa razão vamos conversar com as autoridades brasileiras, porque estamos todos no mesmo barco", completou.

A ideia é que a organização batizada de International Non-Profit Credit Rating Agency (Incra, em inglês) tenha escritórios na Europa, nos Estados Unidos, na América Latina e na Ásia, nos quais especialistas farão a análise de risco de cada país. A expectativa do Bertelsmann é que o Brasil seja a sede latino-americana da agência, por ser a maior economia da região.

Por enquanto, as nações do G-20, que já ressaltaram a necessidade de uma reforma nas agências de crédito em reuniões passadas, ainda não se debruçaram para analisar a proposta da fundação. "Mas acredito que o grupo chegará a um consenso sobre a necessidade de criação da Incra", declarou Heuser.

Além dos governos, a Incra poderá receber doações de corporações e Organizações Não Governamentais (ONGs). "Queremos que todos os atores da sociedade sejam doadores, porque a questão do risco soberano é um bem público, afeta todos os contribuintes já que, quando uma nota de um Estado é reduzida, o país paga mais caro para se financiar nos mercados mundiais", disse a diretora-executiva.

O conflito de interesses, ponto-chave na crítica feita às agências de risco americanas durante a crise financeira, seria solucionado na nova organização com a criação de um "corpo de supervisão", que terá como objetivo garantir que não haja interferência dos doares nas decisões de rating dos Estados. "Todos os doadores terão a mesma fatia de participação, mas ninguém teria ingerência sobre como os ratings são conduzidos", explicou Heuser.

O instituto tem trabalhado na proposta desde dezembro de 2011. A iniciativa de efetivamente criar a agência, no entanto, caberá aos Estados, explica Heuser.

Com a recente redução da nota de crédito de países como Espanha, Portugal e Itália, o tema da credibilidade das agências de rating foi extensamente debatido no Velho Continente. Após a onda de rebaixamentos, surgiram inclusive planos para a criação de uma agência de risco privada europeia, o que é criticado por Heuser. "Os investidores internacionais não vão confiar mais em uma agência europeia. Os investidores procuram uma agência realmente independente para avaliar o risco de dívida dos países", lembrou.

"Sempre defendemos que aumentar a independência e qualidade das agências de rating não é uma questão apenas da Europa, mas uma questão que está no topo da agenda dos Estados da América Latina, como do Brasil, e de estados da Ásia, como Índia e China", disse.

A Incra pretende usar também indicadores políticos, econômicos e de desenvolvimento dos países para chegar aos ratings de crédito, não apenas indicadores macroeconômicos, explica Heuser. "Do meu ponto de vista, é necessário arrumarmos a casa antes de a próxima crise financeira ocorrer", concluiu.

Fonte: Valor Econômico