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Banco do Brasil

Banco corta comissão de concessionária

O Banco do Brasil foi o primeiro a dar prioridade para o crédito concedido na agência bancária, a clientes


Em 05.07.2012 às 00:00 Compartilhe:

 

Pressionados pela alta da inadimplência e pela determinação do governo de conseguir baixar os juros cobrados dos clientes, os bancos começam a alterar o seu modelo de negócios no financiamento de veículos. A intenção é reduzir a intermediação das concessionárias de veículos no processo de financiamento e, com isso, encolher um pesado custo, que passa a não caber nas novas margens.

Até recentemente, os bancos chegavam a pagar comissão de até 6% às concessionárias de veículos que fechavam os empréstimos, já que elas são o principal canal de comercialização desse crédito.

O Banco do Brasil foi o primeiro a dar prioridade para o crédito concedido na agência bancária, a clientes. Os demais bancos têm seguido a estratégia, como uma maneira de pressionar as concessionárias a aceitar comissões mais magras, afirma um executivo ligado a um grande banco que preferiu não ser identificado.

"As comissões altas tinham reflexo na taxa do financiamento na concessionária, que ficava mais caro. Isso dificultava cortes nas taxas desses créditos, como pressionava o governo", diz o executivo. Segundo ele, houve uma redução no número de faixas possíveis de comissão, de seis para três, com redução do teto pela metade, o que envolveu negociações inclusive com a Fenabrave, a associação das concessionárias.

As comissões oferecidas a esses intermediários, calculadas como um percentual do valor total do financiamento, estão hoje em 1,2%, em média. O valor é inferior ao praticado no mercado americano, tido como referência, de aproximadamente 2,5%. Há pouco mais de dois anos, as comissões pagas a revendedores no Brasil podiam alcançar 15%, dependendo do risco de crédito do cliente e do tipo do veículo. As comissões são desembolsadas no ato da venda - "na cabeça", no jargão de mercado. Ou seja, as concessionárias ficam com uma fatia da margem financeira dos bancos, mas estão livres do risco de inadimplência.

Em meados de 2010, quando a venda de veículos no país bateu recorde e a concorrência na oferta de financiamentos acirrou, os bancos se reuniram e estabeleceram um teto informal de 5% para essas comissões. Havia preocupação com "práticas difíceis de serem controladas", segundo o executivo de um grande banco de varejo. "Quem teve pouco cuidado apresentou balanço fragilizado", acrescentou ele.

A taxa média das comissões pagas a revendedores passou, desde então, a girar em torno de 3,5%. Sobre esse valor podem ser acrescidos bônus por desempenho, pagos pelo cumprimento de metas de volume, na faixa de 0,5% a 2%, e um ônus adicional de 0,4% para despesas administrativas e de pessoal, ressaltam os analistas do Santander Henrique Navarro e Renato Schuetz em relatório de junho sobre o setor de financiamento de veículos. Tudo isso resultaria em um custo total de originação, segundo os analistas, de aproximadamente 5,7%.

A nova comissão média de 1,2% não leva em conta bônus por desempenho "Os bancos não diminuíram um níquel o spread deles", reclama Marcelo Jalus, da rede de concessionárias Amazon, de São Paulo. "Tudo o que fizeram foi retirar o ganho da concessionária."

Ainda que a inadimplência dê uma trégua e comece a cair, como especialistas esperam que ocorra a partir deste segundo semestre, os revendedores deverão encontrar uma forte resistência por parte dos bancos para aumentar as comissões pagas. "Tudo em excesso acaba criando desequilíbrio", afirma o mesmo executivo de banco de varejo, para quem o mercado de financiamento de veículos passa por um rearranjo estrutural. "Se [a comissão] subir, o máximo que chegará é aos 2,5% do mercado americano, e mesmo assim acho difícil [que atinja esse patamar]."

Ao mesmo tempo que as comissões pagas a revendedores encontram-se em um nível muito abaixo do teto de 5% estipulado pelos bancos, uma parte da demanda por financiamento de veículos se deslocou das concessionárias para as agências, em função das promoções encampadas para correntistas. Foi observada uma migração de 5% dos contratos antes fechados nas concessionárias para a rede bancária, fazendo com que as agências respondam, hoje, por cerca de 20% do volume de financiamentos de veículos.

Marcelo Labuto, diretor de empréstimos e financiamentos do Banco do Brasil (BB), diz que a média de desembolso diário de crédito para veículo nas agências passou de R$ 10 milhões, em março, para R$ 65 milhões nos últimos três meses, período em que está no ar o programa "Bompratodos", com redução de taxa para diversas linhas de empréstimo.

Desde que adquiriu metade do Banco Votorantim, no fim de 2009, o BB concentrou sua oferta de financiamento de veículos exclusivamente nas agências, para os correntistas da instituição. A estratégia tornou a concessão mais assertiva, segundo Labuto. "Consigo conter a inadimplência porque não estou capturando quem não conheço", afirma. "Isso permite ao banco trabalhar em patamares de preço melhores", completa.

Apesar da pressão sobre o valor das comissões pagas às concessionárias, atualmente, a intermediação no financiamento de veículos deve seguir existindo. É bastante provável, aliás, que continue respondendo pela maior parte da distribuição de crédito. Quem decide comprar um carro, via de regra, vai direto à concessionária, e não à agência bancária. Essas compras são feitas, normalmente, no fim de semana. Para os bancos, é também na ponta de venda que se dá a concorrência. Na revenda, a instituição financeira consegue ter acesso a praticamente 100% do mercado comprador - incluindo correntistas de outros bancos.

Navarro e Schuetz, analistas dos Santander, avaliam que o spread líquido médio sobre as carteiras de crédito para veículos, estimado por eles em 4,3% em abril, ainda ofereça uma proteção confortável para a rentabilidade dos bancos. "Uma possível deterioração do índice de inadimplência nos próximos meses pode ser compensada pela queda de 75 pontos-base nos custos de captação incorridos até junho", ressaltam, em relatório.

 

Fonte: Valor Econômico