× Modal
< Voltar


Assuntos diversos

Os riscos do empréstimo eletrônico

Apesar de não ser ilegal, o serviço oferecido nos terminais de atendimento pode se revelar um pesadelo para o cliente.


Em 18.06.2012 às 00:00 Compartilhe:


Quem usa o caixa eletrônico deve ter se deparado com a tentadora mensagem do empréstimo rápido, fácil e acessível a partir de um simples toque. Em alguns casos, a tela com a proposta de financiamento aparece assim que o consumidor coloca o cartão na máquina, antes mesmo de iniciar qualquer operação. Ao adquirir um empréstimo como esse, no entanto, o consumidor precisa estar ciente de que pagará mais pela comodidade. Há bancos em que essas taxas são maiores do que a do cheque especial e podem ser três vezes superiores às do crédito pessoal.

Os problemas relacionados a esse tipo de serviço vão além das altas taxas de juros. Segundo um levantamento feito pela Associação de Consumidores (Proteste) com sete bancos, quando o cliente adquire o empréstimo eletrônico, ele se depara com informações equivocadas, taxas controversas e dificuldade na hora de tentar cancelar o serviço.

A prática de anunciar uma porcentagem do Custo Efetivo Total (CET) do empréstimo e cobrar tarifa diferente foi a ocorrência mais grave encontrada pela Proteste, pois ela desrespeita a legislação brasileira. O Código de Defesa do Consumidor deixa claro o direito à informação correta. Citibank, Itaú, Bradesco e HSBC anunciam, por exemplo, uma porcentagem de custos ao ano e, no fim, cobram mais do que o proposto inicialmente. "Essa divergência é grave. Por isso, o cliente deve sempre guardar qualquer comprovante para pedir o ressarcimento", explica a coordenadora institucional da Proteste, Maria Inês Dolci.

Em nota enviada ao Correio, o Itaú-Unibanco e o Bradesco discordaram do estudo da Proteste e alegaram que os cálculos do CET são feitos corretamente, além de seguirem as normas do Banco Central, responsável pela regulação do setor. As assessorias de comunicação do HSBC e do Citibank não se pronunciaram sobre o assunto.

Para Maria Inês, os bancos tentam seduzir o cliente pelo impulso. A estratégia de colocar a tela do empréstimo logo no início da operação é uma prova disso. "Para evitar a burocracia e o contato com o gerente, o consumidor acaba caindo em uma armadilha para o bolso dele. Quando adquire um empréstimo como esse, não está bem informado, na maioria das vezes", explica. A Caixa é o único banco entre os analisados que não oferece empréstimos eletrônicos ao cliente. Ele precisa acessar a sua conta por meio de um código fornecido pela agência para ter acesso ao financiamento.

A prática de expor na tela inicial a proposta de empréstimo, porém, não é ilegal, nem abusiva, como explica o presidente do Instituto Brasileiro de Estudo e Defesa das Relações de Consumo (Ibedec), Geraldo Tardin. "O banco dá a opção. O cliente faz, se quiser. Agora, é preciso ficar atento, pois empréstimo só deve ser feito em caso de extrema urgência. Caso contrário, é dor de cabeça", avisa.

Dificuldades
A supervisora de vendas Patrícia Carvalho, 25 anos, acostumou-se a pegar o financiamento fácil. O limite de R$ 3 mil e a facilidade de conseguir o dinheiro a qualquer hora tornaram a prática rotineira. O banco sempre abriu a opção de em quantas vezes ela teria de pagar as prestações, mas não deixava claro o total de juros a pagar. "Se tinha desconto à vista na loja, eu pegava o dinheiro. Se precisava pagar alguma conta, ia no empréstimo fácil. Um dia, fiz as contas e vi que os juros eram mais de 120%. Fiquei assustada e estou evitando recorrer a esse tipo de financiamento", contou.

O levantamento da Proteste mostrou que, nos sete bancos consultados, conseguir o empréstimo via caixa eletrônico é simples, fácil e rápido. Geralmente, os valores liberados tendem a ser altos. Em compensação, as instituições dificultam a devolução do dinheiro em caso de arrependimento ou de erro. Se o cliente quiser cancelar a operação, ele precisa ir à agência de origem da conta. O empréstimo não pode ser desfeito no mesmo caixa eletrônico onde foi adquirido nem por telefone ou via internet.

Quando o cliente chega à agência e pede o estorno do crédito concedido, por exemplo, acaba orientado a fazer a liquidação antecipada - a operação engloba o pagamento de juros e de taxas pelo dia em que o empréstimo deixou de ser cancelado. O Itaú-Unibanco informou, por meio de nota, que, diferentemente do resultado do levantamento da Proteste, o banco oferece sete dias para o arrependimento.

A coordenadora da Proteste, Maria Inês, disse que a entidade mandou os resultados do levantamento à Federação Brasileira de Bancos (Febraban). O órgão, por sua vez, informou que encaminhou a conclusão do estudo para os sete bancos analisados. E caberia a eles a postura de acatar ou não as observações da Associação dos Consumidores.

Atenção à tarifa bancária
Quando o Banco Central (BC) reduziu as taxas de juros, muitas instituições financeiras subiram as tarifas de diversos serviços. Levantamento realizado pela Fundação Procon de São Paulo revelou que 44% dos pacotes bancários - excluindo o padronizado do BC - sofreram algum reajuste. Os valores variavam de 3,07% a 41,58%. Sete bancos foram pesquisados, sendo dois públicos e cinco privados. A pesquisa ocorreu no mês passado e comparou os dados levantados na mesma data, em 2011. O Itaú foi o campeão de alta: 74% dos 27 pacotes oferecidos ao cliente subiram. Em segundo lugar, ficou a Caixa Econômica Federal, na qual quatro dos seis serviços sofreram aumento de até 30,6%. O Santander foi a instituição com o menor índice de reajuste. Dos nove pacotes, apenas um sofreu crescimento de 3%.

Palavra de especialista

Falta dematuridade
"Os bancos querem estimular o crédito e, por isso, oferecem muitas facilidades de empréstimo, como o disponível em caixa eletrônico. Mas a população brasileira ainda não tem maturidade financeira para usar o crédito de maneira correta, como para uma emergência ou para investimentos. O que a gente percebe é que o brasileiro gasta muito por impulso e faz uso do crédito indistintamente. Os bancos estimulam e facilitam isso. Por isso, a dica é evitar o empréstimo, principalmente os facilitados, como os de caixa eletrônico."

Álvaro Modernell é educador financeiro e diretor do portal Mais Ativos

Fonte: Agência ANABB