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Assuntos diversos

Bancos acirram disputa por recebíveis

A nova frente de competição aberta é a de antecipação de recebíveis de cartão


Em 06.09.2011 às 00:00 Compartilhe:

 

Passado pouco mais de um ano da abertura do mercado de cartões, o clima de disputa que se criou ganha novos contornos. A nova frente de competição aberta é a de antecipação de recebíveis de cartão, uma linha de crédito para estabelecimentos comerciais. Agora, porém, as duas maiores processadoras de transações e credenciadoras de lojistas, Cielo e Redecard, enfrentam uma situação que não deixa de ser curiosa, com a entrada de bancos em campo.

 

A Cielo precisa defender seu mercado até mesmo de seus próprios acionistas, Bradesco e Banco do Brasil (BB), além dos demais bancos de varejo. O mesmo raciocínio vale para a Redecard, que pertence ao Itaú Unibanco.

Como sugere o nome da operação, na antecipação de recebíveis a credenciadora adianta ao comerciante o volume das vendas feitas num determinado período, cujos pagamentos tenham sidos efetuados com cartões de crédito - quando feita por uma credenciadora, a operação, tecnicamente, não é considerada crédito, por não se tratar de um banco.

Já os bancos podem não só antecipar o valor transacionado em um determinado estabelecimento comercial como oferecer um volume bem maior de dinheiro por meio de um empréstimo. A operação, conhecida como "fumaça" no jargão de mercado, é feita com base num histórico de meses de receitas auferidas com cartões.

Ao longo do primeiro semestre, os bancos mostraram apetite mais apurado para dar crédito a lojistas, "roubando" parte da receita das credenciadoras com a operação de antecipação de recebíveis. O avanço das instituições financeiras pode ser medido pelo recuo das credenciadoras nessa atividade.

Na Cielo, o volume financeiro de transações antecipadas foi de R$ 3,3 bilhões no segundo trimestre, equivalente a 7,2% do volume de transações processadas com cartões de crédito pela empresa. Houve ligeiro recuo em relação à fatia de 7,3% no primeiro trimestre. Na Redecard, o volume pré-pago atingiu R$ 6,2 bilhões no segundo trimestre, respondendo por 16,6% sobre o volume financeiro de crédito, ante 20,9% no primeiro trimestre.

"Com certeza os bancos estão mais competitivos", avalia Paulo Ribeiro, analista de ações do HSBC. Ele acredita que descontos de recebíveis em patamares superiores a 20% das transações de crédito capturadas pelas adquirentes, como se via na Redecard, não vão mais ocorrer. "A tendência é que as credenciadoras percam essa participação e os bancos ganhem presença nesse negócio."

A Cielo, na verdade, passou a atuar no mercado de antecipação de recebíveis pouco antes de sua oferta de ações em bolsa, em junho de 2009. Eram seus bancos controladores, especialmente o Bradesco, que se encarregavam dessa atividade. Nada mais natural, portanto, que a Cielo ganhasse participação no mercado de antecipação de recebíveis, principalmente após a abertura do mercado de cartões - o que, de fato, vem ocorrendo, porém não no ritmo esperado.

"O volume potencial de antecipação de recebíveis na Cielo do qual todos falam, entre 12% e 13% do montante de crédito transacionado, deve ser alcançado em dois ou três anos", observa Ribeiro, do HSBC. A Redecard, que sempre fez pré-pagamento, vem perdendo participação mesmo podendo descontar, há um ano, os recebíveis de cartões da Visa. Para Ribeiro, a parcela de antecipação de recebíveis ante o volume de crédito processado pela Redecard deve se estabilizar entre 16% e 17%.

Mas, se por um lado as credenciadoras vêm sentindo mais forte a concorrência na atividade de antecipação de recebíveis, por outro, conseguem compensar em parte essa perda de mercado impulsionando o serviço chamado de "trava" oferecido aos bancos. A trava permite direcionar todo o fluxo futuro de dinheiro a ser movimentado por meio de cartões de crédito e débito em um determinado comércio para o banco com o qual aquele estabelecimento tomou um empréstimo, minimizando o risco da operação.

A Cielo teria, inclusive, aumentado o custo do serviço de trava oferecido aos bancos, incluindo seus controladores. Rômulo de Mello Dias, presidente da Cielo, limitou-se apenas a dizer que os custos de trava tendem a crescer mais do que antes e que as comissões variam "caso a caso". Em teleconferência com analistas por ocasião da divulgação de resultado do segundo trimestre, Dias afirmou que a empresa havia chegado a um acordo pelo preço da trava após negociações que ocorreram no âmbito da Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP), ligada à Federação Brasileira dos Bancos (Febraban). "Esse acordo foi importante para a indústria como um todo, na medida em que torna mais claro quais são os objetivos e, por que não dizer, os próprios custos do negócio dos serviços de trava que prestamos para os bancos."

Fonte: Valor Econômico