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Assuntos diversos

De que são feitos os heróis?

De que são feitos os heróis?


Em 01.01.2015 às 00:00 Compartilhe:


“São todos iguais”, gostam de dizer das lideranças populares – com escárnio – os que se sentem confortáveis com a situação vigente. Não pretendem, com isso, defender a igualdade de todos os homens e mulheres, mas apenas desmoralizar – na figura de quem luta por mudanças – qualquer esperança de dias melhores.

“Eu não sou mito nem herói de ninguém. Eu não sou nada mais do que Herbert José de Souza”, dizia esse homem de carne e osso – ao final, mais osso do que carne – aidético graças ao mercantilismo que impera nos bancos de sangue do país.

Talvez tenha sido essa franqueza que desconcertou a tentativa de desmoralizá-lo através dos meios de comunicação em 1994, no auge da “Ação pela Cidadania contra a fome, a Miséria e pela Vida” – popularizada como “a Campanha do Betinho” – quando se descobriu uma doação dos bicheiros do Rio de Janeiro à Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (Abia), organização não-governamental apadrinhada por ele.

Porque as elites brasileiras – tão profícuas que os jornais precisam esquecer os escândalos de ontem sob pena de não ter espaço para os de hoje – precisam exibir provas de que seus opositores não são santos.

Trabalho desperdiçado, quando o opositor – contaminado pelos bancos de sangue também com a hepatite C – pede música de Vivaldi e uma lata de cerveja, antes de falecer.

O ataque não “colou”. Não tinha em quem “colar”. Não havia ninguém se fazendo de santo. Falhou mais essa tentativa de mudar o assunto, de esquecer o drama da exclusão econômica e social de milhões de brasileiros para concentrar os holofotes dos meios de comunicação sobre a discutível santidade de um homem - mais osso do que carne – cuja atuação vinha incomodando as elites. Mas, por que incomodava, afinal?

PAÍS DIVIDIDO
Era uma vez um país dividido (segundo a oposição) entre “o país oficial”, de um lado – onde todos eram iguais perante leis que asseguravam os mais detalhados direitos dos cidadãos – e, de outro, “o país real”, uma espécie de gueto ou apartheid da cidadania.

Embora o governo e a maioria dos políticos, empresários, jornais e emissoras de TV vivessem no “país oficial”, não faltavam opositores – intelectuais, estudantes, artistas e lideranças de esquerda – para denunciar que o verdadeiro país de dezenas de milhões de pessoas era bem outro. Mas os próprios intelectuais, estudantes, artistas etc. viviam no “país oficial” e só incomodaram um pouco, até que todos se acostumaram a ouvir suas denuncias como parte da ordem natural das coisas.

Campanhas de coleta de alimentos, roupas e agasalhos para “os pobres”, havia muito tinham deixado de ser novidade. Delas participava desde as primeiras-damas dos Estados e da União até os “praças” em caminhões do Exército e modestas donas-de-casa nas quermesses do interior. Algumas “deram tão certo” que se transformaram em importantes eventos, como a Feira da Providência, no Rio de Janeiro, e mais tarde a Festa dos Estados, em Brasília. Outras tornaram-se instituições permanentes com belos templos de mármore.

Assim, todos podiam participar – bastava escolher o caminho mais à mão – e retornar, satisfeitos, às suas vidas no “país oficial”. Um paternalismo doador, onde o “pobre” entrava como objeto da ação caridosa. Nada que incomodasse uma “pessoa de bem”.

Menos aqueles intelectuais, estudantes etc., conscientes de que a raiz do apartheid era muito mais embaixo. Inteligentes como eles só, percebiam com toda clareza que o drama de dezenas de milhões de pessoas jamais seria solucionado com prendas & donativos.

DERRUBANDO TEORIAS
O problema era estrutural, advertiam os intelectuais – estava na própria forma como “o país oficial” fôra estruturado, como que de propósito para excluir a maioria – e só alterando radicalmente essa estrutura ele poderia ser resolvido.

Um raciocínio perfeito, irretocável. Mas como era difícil modificar a estrutura de um país inteiro,  só com raciocínio & argumentação.! Ainda mais, que teoria não enche barriga (de quem passa necessidade) nem aumenta patrimônio (dos outros). Nada, portanto, que incomodasse demais.

Mas, eis que surgiu um intelectual, sociólogo (nada menos) e líder de esquerda a propor – heresia das heresias!- coletar e levar alimentos-já para os que dele tinham necessidade urgente.

E não como caridade paternalista, mas como ato de solidariedade – um ato de reconhecimento de que o excluído é um cidadão com todos os direitos – e um ato de cobrança desses direitos, negados pelo “país oficial” com todos os seus belos discursos.

Dizer que o excluído precisa de aliementos-já – e não quando o país atingir uma utopia de esquerda – teve o dom de reconhecê-lo sujeito, e não mais objeto de caridade ou de teorias.

E foi assim que Betinho teve o dom de mobilizar milhares de pessoas que acreditavam em mudanças, tirá-las do gueto “oficial”, levá-las ao enorme gueto “real” e colocá-las diante dos excluídos da cidadania.

Em pouco tempo os Comitês da Cidadania Contra a Fome e a Miséria passara a constituir uma enorme rede de solidariedade – tecida em boa parte, desde a primeira hora, com a adesão praticamente total do funcionalismo do Banco do Brasil. Decorrido menos de um ano, cerca de 50%  dos comitês envolvia a participação do pessoal do BB.

Desse encontro dos “dois países”, face a face em torno de problemas concretos e imediatos, surgiu – no melhor estilo Paulo Freire – uma espécie de “pedagogia da fome”, com enorme potencial de conscientização das pessoas. Isso, já era capaz de incomodar, e bastante.

“É um movimento que nasceu da ética e invadiu toda a sociedade. É, assim de tudo, um movimento que constrói, além da solidariedade que desperta, uma nova forma de fazer política”, declarou Betinho, rompendo sua costumeira modéstia, quando da instituição do Prêmio Cidadania, promovido pela Anabb.

Mas, não disse que talvez somente ele seria capaz – tal como um semeador de Cidadania – de inspirar a garra e o desprendimento de todos os que participaram e participam da concretização de um sonho, para muitos, quixotesco.

Sim, Betinho foi um Quixote. A diferença é que seu enfrentamento não foi contra moinhos de vento, mas inimigos concretos e reais: a miséria, a fome, a desesperança. Ele não queria ser herói. E foi.

Há muito tempo, aliás, já estávamos convencidos de que ninguém, senão ele, teria sido capaz de demonstrar na prática como se fazem os verdadeiros heróis.

Agora o grande desafio é aumentar ainda mais o número de anônimos mas indispensáveis “Betinhos” que haverão de continuar multiplicando a cidadania pelo país e pelo tempo afora.

DESAFIO
Apesar de já bastante debilitado, Betinho ainda descobria forças para dedicar-se a novos projetos. Vinha lutando, por exemplo, para criar mecanismos capazes de incentivar as companhias abertas (aquelas que tem ações subscritas pelo público) para elaborarem um Balanço Social Anual. Com esse objetivo, chegou a formar parceria com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para a discussão da proposta. “O empresário tem que entender que ele não pode produzir sem estar comprometido com a sua comunidade. É o que chamamos de empresa-cidadã. Quando você reúne dois terços do PIB e pergunta o que eles estão fazendo para, no futuro, acabar com a miséria, a fome, aí é que está o desafio”, afirmou Betinho recentemente em entrevista ao Jornal do Brasil.

Fonte: AÇÃO 103 - AGO/97