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Assuntos diversos

Entrevista: Herbert de Souza, 'Betinho'

Entrevista: Herbert de Souza, 'Betinho'


Em 01.01.2015 às 00:00 Compartilhe:


Idealizador da campanha contra a fome, o sociólogo Herbert de Souza aposta na solidariedade e diz que a união de todos pode gerar mudanças

É difícil aceitar a idéia de que a economia capitalista do Ocidente, com um PIB de US$ 450 bilhões, abrigue uma legião de miseráveis que já ultrapassa a casa dos 30 milhões. Mas essa é a situação do Brasil. São exatamente 31.679.095 pessoas que, todos os dias, acordam sem ter o que comer. Dos 146 milhões de brasileiros, 22% estão na mais absoluta miséria.

Estes números alarmantes comprovam a dura realidade dos que sofrem com a injusta distribuição de renda do país enquanto, inacreditavelmente, 20% da produção agrícola anual vão parar, literalmente, na lata do lixo.

Foi em meio a este triste cenário que surgiu um homem que se transformou no símbolo da luta contra a fome. Para muitos, o nome do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, se confunde com a própria “Campanha Ação da Cidadania contra a miséria, e pela Vida” lançada por ele.

No início, a Campanha parecia fadada a ser apenas mais uma, No entanto, o movimento conquistou vários segmentos da sociedade civil: empresas públicas e privadas, entidades de classe, associações, imprensa, enfim, toda a sociedade se sensibilizou e passou a apoiar a iniciativa solidária de Betinho.

Mas é sempre importante lembrar que o problema tem duas faces: a estrutural e a emergencial. Atuar somente na emergencial é contribuir para eternizar a miséria. Trabalhar só com a face estrutural significa não mudar nada a curto prazo em nome de uma duvidosa filantropia a longo prazo.

Em entrevista exclusiva ao Ação, Betinho destaca a atuação do funcionalismo do Banco do Brasil na Campanha contra a fome, fala sobre o trabalho dos comitês espalhados por todo o país e das dificuldades encontradas pelo caminho. “Disse ao Presidente Itamar que somente com o BB ao lado dele, não precisaria de ministério nenhum”, diz o sociólogo, que afirma: a mostra de cidadania do Banco deixará marcas definitivas na instituição.

Ação – Como nasceu a Campanha da Ação Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida?
Betinho –
O início do Movimento tem algo de particular com o momento histórico vivido pelo Brasil, e algo geral, que se referencia diretamente à vida de todos nós, tanto habitantes do terceiro mundo quanto daqueles que vivem nos países desenvolvidos.

Em 1992, a sociedade civil brasileira se mobilizou contra a corrupção desenfreada promovida pelo governo Collor. Sua proposta neoliberal de reduzir a ação do Estado, ao mínimo possível, serviu para estimular e encobrir um dos maiores saques já vistos contra o Tesouro Nacional. O orçamento público quebrou empresas estatais e desarticulou os serviços públicos. A indignação correu o país. O povo foi às ruas e manifestou-se favorável à saída do presidente da República. A pressão foi forte demais para que o Congresso Nacional fugisse da missão histórica que o povo lhe determinava cumprir. O presidente foi impedido, mas a indignação nacional permaneceu.

As entidades que formavam o então Movimento pela Ética na Política (ONGs, Centrais Sindicais, Igrejas, Movimentos Sociais etc), continuaram a se reunir e deliberamos que era chegada a hora de se rediscutir as prioridades nacionais. Os trinta e dois milhões de brasileiros atingidos pela fome têm negadas as condições mínimas de exercício da cidadania.
O movimento pela Ética na Política  resolveu organizar-se como Ação pela Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida. Hoje, o movimento, iniciado em abril deste ano, conta com mais de 3000 comitês funcionando em todo o país. Ele se funda na organização solidária, descentralizada e ativa da cidadania, quer em sua rua, seu local de trabalho ou onde quer que seja.

Ação – De que forma o trabalho dos comitês é organizado?
Betinho –
A primeira tarefa dos comitês é fazer um mapeamento da miséria em sua localidade, organizando a coleta solidária de alimentos w distribuição dos mais necessitados. Descobrimos que a caridade não pode ser somente um ato de assistência, mas ela pode se transformar em um ato de solidariedade. Dessa maneira, como ação solidária, aos que estão morrendo de fome, nos ligamos a eles, podemos nos transformar em um só. A solidariedade é transformadora, ela nos remete, necessariamente, às causas da pobreza e da miséria, nos força a discutir e agir.

A Ação da Cidadania reúne pessoas das mais diferentes origens políticas, ideológicas, sociais e econômicas. Há comitês formados por igrejas que jamais conversaram entre si, correntes sindicais antagônicas estão na mesma linha de frente, partidos concorrentes se unem. Isso tudo, é claro, com certa tensão, que vai sendo superada com maior ou menos facilidade. A solidariedade, antes somente teórica, passa a ser praticada.

Ação – A criação do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea) garante a participação do governo na Campanha. Qual o trabalho desenvolvido pelo Consea?
Betinho –
Por mais organizada que esteja a cidadania não faz tudo. Estabelecemos um espaço de parceria com o governo. Foi criado o Consea, composto por oito ministros de estado e dezenove representantes da sociedade civil, indicados pelo Movimento pela Ética na Política.

O Consea é um organismo de parceria Estado-Sociedade, onde são discutidas as políticas públicas e as ações de governo para o combate à fome. Este conselho já definiu melhores parâmetros para a alimentação dos estudantes nas escolas, criou um programa de distribuição emergencial de alimentos para os atingidos pela seca no nordeste do país e está discutindo formas de apoio à reforma agrária e à geração de emprego.

Ação – Você tem elogiado a atuação do funcionalismo do Banco do Brasil na Campanha. O quadro do BB pode ser um exemplo para os outros comitês?
Betinho –
A atuação dos funcionários do Banco do Brasil sempre mereceu destaque de minha parte. Participei de reuniões com a diretoria do banco, com os superintendentes, gentes, funcionários, associações. Desde o primeiro momento, descobri no BB um espírito de cidadania sem par. Para mim, esse espírito é a corporificação da função social do Banco. Não dá para ver um agente financeiro público, deixar-se cativar pelo inchaço do sistema financeiro, sabendo que isso acaba em detrimento do setor produtivo, da geração de emprego. Enfim, os bancos crescem, num momento de crescimento da miséria no país.

Quando vejo os milhares de funcionários do Banco do Brasil se mobilizando, imagino que isto tem a ver com uma indignação, algo de crítica ao modelo estabelecido, que favorece os ricos e piora a situação dos pobres.

Já disse ao Presidente Itamar que se ele tivesse somente o Banco do Brasil ao lado dele, não precisaria de ministério nenhum. Os funcionários do BB dariam conta do recado. E isso estamos vendo. São milhares de comitês criados por eles. Tenho conhecimento de que os funcionários têm agido mesmo em condições adversas. Alguns gerentes não têm dado ajuda, ao contrário, têm até boicotado. Mas a cidadania cresce no Banco, e isso deixará uma marca definitiva na instituição, que afinal, é do Brasil ou não é?

Ação – Quais as principais dificuldades que a Campanha enfrenta?
Betinho –
Enfrentamos todas. Começamos enfrentando a nós mesmos, que achávamos que a solução para a fome viria somente através de mudanças estruturais e culturais profundas. Hoje, descobrimos que as mudanças estruturais fazem parte de um processo. Elas pode se dar na construção da cidadania. Vivíamos como se esperássemos um milagre ou uma mágica. Nos afastamos do povo, de sua vivência real. Criticávamos a caridade, mas não víamos nela a semente da solidariedade.

Enfrentamos o preconceito das classes médias, que podiam ser favoráveis à ações contra a fome, mas não queriam se misturar com os indigentes e famintos. A solidariedade está mudando isso. Continuamos a enfrentar um Estado feito para produzir a fome e a miséria. Lutamos no dia-a-dia contra essa estrutura, procurando fazer o Estado funcionar em outro sentido.

Enfrentamos ainda o gigantismo do problema. Que deixa muitos apáticos e paralisados. Mas os comitês, que começam a produzir propostas concretas de geração de emprego, melhor utilização dos recursos públicos, estão mostrando que nossa união pode produzir mudanças.

Tenho recebido muitas críticas. Alguns me criticam porque dou muita ênfase ao caráter descentralizado da campanha. Disso não me arrependo. Sou contra a centralização. Precisamos valorizar a ação de cada um, dar autonomia a todos. É chegada a hora de articular todo esse esforço. Não prego a anarquia. Acredito que precisamos organizar as coisas, mas sem ficar amarrando os comitês a qualquer burocracia.

Ação – Quais são os instrumentos de trabalho da Campanha, além dos coités?
Betinho –
Temos um jornal, “Primeira e Última”, que já funciona em parte como articulador. Temos uma Secretaria Nacional da Campanha (que funciona em Brasília); nos Estados, temos as Secretarias Estaduais, algumas funcionando bem, outras em fase de estruturação.

Precisamos botar nossa criatividade para funcionar, sem esperar ordens de cima. Mais um exemplo, dado pelos funcionários do BB, está sendo agora a confecção de camisetas para a campanha, que dará condições financeiras para muitos comitês desenvolverem projetos próprios. Não vai resolver todos os problemas do país, mas se somarmos essa iniciativa a milhares de outras, certamente mudamos a cara do Brasil.

Agora é hora de começar a dar um salto, continuar ainda a distribuição de alimentos, mas agregar  outras ações: de geração de emprego, de organização municipal para o cuidado à infância , de reforma agrária. Muitos comitês estão dando mostras de que é possível gerar empregos em nível municipal. Outros estão trabalhando em projetos de hortas comunitárias, ou na área de saúde preventiva, outros ainda em educação.

Fonte: AÇÃO 55 - DEZ/93