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Assuntos diversos

Economistas apontam pressão inflacionária nos gastos do governo

Segundo eles, os cortes anunciados não são suficientes para reduzir essa pressão


Em 22.02.2011 às 00:00 Compartilhe:


Os gastos do governo têm sido o maior fator de pressão sobre a inflação, depois dos preços internacionais das commodities e dos alimentos, e os cortes anunciados não são suficientes para reduzir essa pressão segundo economistas que participaram do seminário Cenários da Economia Brasileira e Mundial em 2011, promovido pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e pelo Valor.

Alexandre Schwartsman, economista-chefe do Banco Santander, calculou que o corte de gastos de R$ 50 bilhões anunciado pelo governo para o Orçamento de 2011 vai representar apenas 0,2 ponto percentual de redução nos gastos como fatia do Produto Interno Bruto (PIB). Para ampliar o efeito, a redução deveria ficar entre R$ 80 bilhões e R$ 100 bilhões, disse Schwartsman, de forma que atingisse uma fatia entre 1 ponto percentual a 1,5 ponto percentual do PIB, magnitude semelhante à média da expansão fiscal dos últimos anos.

Mesmo com o corte anunciado, o Orçamento de 2011 vai subir R$ 64 bilhões, de R$ 655 bilhões no ano passado para R$ 719 bilhões. Com isso, o gasto governamental vai passar de 17,9% do PIB em 2010 para 17,7%, o que segundo Schwartsman "é muito pouco comparado com o que a gente precisa".

O economista alertou para a piora das expectativas de inflação, a despeito do corte anunciado, e ressaltou que, mesmo com a exclusão de alimentos e preços administrados, a alta geral de preços é perceptível, o que faz com que apenas 40% dos analistas consultados pela pesquisa semanal do Banco Central acreditem em uma inflação no centro da meta. "Estamos permitindo um descolamento das expectativas", frisou Schwartsman,

"Há um consenso de que o ajuste fiscal tem que ser aprofundado, a dosagem tem que ser maior, tem que ser implementado com eficiência", disse Carlos Geraldo Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da FGV.

Langoni reiterou que o melhor momento para cortar despesas é agora. "É mais fácil cortar gastos na bonança, quando a economia está crescendo e não esperar uma recessão". O economista da FGV disse que entre 2003 e 2010, o Brasil construiu um "colchão de liquidez internacional" e que agora o objetivo deveria ser construir um "colchão fiscal", fazendo com que as despesas do governo crescessem a um ritmo bem mais lento, reforçando o superávit primário dos cerca de 2,5% do PIB atuais para 3% a 3,5%, o que permitiria zerar o déficit nominal.

"O ajuste fiscal é difícil em qualquer economia", afirmou Langoni, reiterando que a diferença a favor do Brasil é que o país tem hoje uma "situação excepcional", com expansão econômica que significa crescimento de receitas em termos reais em uma velocidade maior que o aumento das despesas. "Então o governo pode sim dar uma freada na despesa e acumular rapidamente essa gordura fiscal que é fundamental", afirmou.

Para o coordenador de análises econômicas da FGV, Salomão Quadros, o novo governo poderia avançar ainda mais na discussão, não apenas cortando gastos para voltar ao centro da meta de inflação de 4,5%, mas apontar para uma redução ainda maior da meta e da banda de variação em um ou dois pontos nos próximos dois a três anos.

Também foi consenso entre os economistas no seminário de que o Brasil não pode fazer muito para conter a pressão dos preços internacionais das commodities e dos alimentos. "Os preços internacionais das commodities agrícolas estão em uma trajetória de forte elevação, com variação de 45% nos últimos 6 meses", constatou Luiz Awazu Pereira, diretor da Área Internacional do Banco Central (BC).

Fonte: Valor Econômico