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Entrevista - Graça Lima

Entrevista - Graça Lima - O principal negociador do Brasil para assuntos internacionais, embaixador José Alfredo Graça Lima, esbanja paciência


Em 07.11.2001 às 00:00 Compartilhe:

Negociador do Brasil
Por Dani Borges

O principal negociador do Brasil para assuntos internacionais esbanja paciência. Com mais de 30 anos de carreira, o embaixador José Alfredo Graça Lima está acostumado ao clima tenso das conversas que cercam acordos comerciais. Ele negocia diretamente com a Alca, Mercosul, Japão e União Européia. Ele falou com exclusividade ao Ação, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. Graça Lima diz que o prazo para a implantação da Alca está garantido – 2005 – mesmo com os atentados do dia 11 de setembro, nos Estados Unidos. Para ele, apesar do impacto na economia, nem tanta coisa mudou assim. "É um pouco ambicioso falar da construção de uma nova ordem econômica internacional", avalia. Ele anuncia o início de mais uma rodada de negociações, principalmente no âmbito da OMC, para a retomada do crescimento econômico. E admite que, às vezes, são necessários “algum drama e algum teatro" nas negociações. Graça Lima também se queixa da "solidão" do negociador. "Ele não pode sentir-se sem o respaldo da nação e o apoio dos setores das forças livres da sociedade", com os quais, de acordo com o embaixador, toda negociação é bem sucedida para o País.

Ação: Após os atentados nos Estados Unidos, pode-se falar em uma nova ordem econômica mundial?
Graça Lima:
É um pouco ambicioso falar da construção de uma nova ordem econômica internacional. Isso era o sonho dos anos 70, em que os países em desenvolvimento posicionavam-se de modo que essa ordem pudesse ser mais justa, eqüitativa. Na realidade, o possível – e até provável – lançamento de uma nova rodada de negociações comerciais multilaterais é um sinal positivo e bastante favorável para os agentes econômicos, para os investidores e para todos aqueles que têm expectativas de recuperação da atividade econômica.

Ação: O que se espera para o Brasil na reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), no Qatar?
Graça Lima:
Temos uma agenda positiva até bastante agressiva em determinados pontos que não estão ainda integrados no sistema do comércio internacional ou necessitam de uma certa revisão. A agricultura é um exemplo de setor que necessita de ajustes. O Brasil é um exportador eficiente de produtos agrícolas. A agricultura vive sob condições excepcionais no comércio internacional, mas é necessário que haja maior liberalização e a eliminação de práticas extorsivas para que o crescimento seja ainda maior. Dessa maneira, serão favorecidos aqueles que produzem, exportam bem e barato. O Brasil tem muito a ganhar com isso.

Ação: Durante as negociações entre Mercosul e União Européia, o excesso de críticas levou o senhor a dizer que se sentia “entregando o Brasil". O que acontecia naquele momento?
Graça Lima:
Foi uma espécie de desabafo em relação a críticas que empacam o negociador no sentido de não dar a ele um voto de confiança. É sempre prematuro afirmar que as negociações não são favoráveis ao Brasil ou que vão contrariar determinados interesses. Por outro lado, o negociador não pode ser um agente isolado. Ele não pode sentir-se sem o respaldo da nação e o apoio dos setores das forças livres da sociedade. Na hora da negociação, o negociador sempre se sente um pouco abandonado. Só com o instrumento de que pode dispor e o apoio da sociedade ele terá a segurança de que necessita para fazer os melhores acordos possíveis para o Brasil.

Ação: Qual é o perfil de um bom negociador?
Graça Lima:
Em qualquer negociação, é preciso ser, antes de mais nada, paciente. O negociador deve aguardar o momento adequado para fazer suas propostas, para agir de maneira a dar razão aos seus objetivos. Não de maneira extremista: o melhor resultado de uma negociação é o empate. Negociação é alguma coisa que deve resultar em benefícios para ambos. De outra forma, ela não será amistosa: aqueles que deverão ratificar a negociação não estarão à vontade para aprová-la. Um negociador também deve ter senso de oportunidade, o que está ligado à própria paciência. Mas, sobretudo, o processo deve ser conduzido de maneira ética. Palavra de negociador não pode voltar atrás. Não necessariamente as propostas, que devem ter a flexibilidade necessária para se poder chegar a acordos razoáveis, precisando, portanto, ser aceitáveis para as duas partes. Isso depende um pouco de temperamento, assim como de um pouco de teatro, de drama, como qualquer negociação.

Ação: O que tem de teatro e de drama nas negociações da Alca?
Graça Lima:
Ali, a teatralidade ocorre mais por conta das próprias personagens. Em determinadas situações – eu já presenciei isso, embora não tenha protagonizado – o negociador assume uma atitude às vezes mais rígida, por razões táticas, para depois poder voltar atrás. Isso tem seu lado bom e seu lado ruim. Sou contra a prática do teatro excessivo, porque compromete a credibilidade do negociador. Mas faz parte do jogo.

Ação: O senhor pode dizer alguma vez em que o Brasil agiu de maneira dramática ou teatral?
Graça Lima:
Não me lembro. A não ser nas situações que não eram propriamente negociais, porque ocorrem mais de trezentas reuniões, formais e informais da OMC, durante o ano inteiro. Em um período anterior ao final da rodada de negociações com o Uruguai, por exemplo, as ofertas dos uruguaios eram muito modestas, e as do Brasil, igualmente modestas. Terminávamos uma negociação empatados, mas em um patamar muito inferior ao que seria desejado para se fazer progressos no sentido da liberalização do comércio. O delegado brasileiro era saudado como um herói, era tido como um agente que impunha rigorosamente as determinações, defendia os interesses do Brasil, simplesmente porque o Brasil não se movia da posição em que estava. Para se chegar nesse ponto, às vezes é preciso algum drama, algum teatro, mas isso são águas passadas. Tenho certeza de que, desde meados da década de 90, o Brasil tem ganhado bastante nessas negociações. Mesmo no sentido da sua própria liberalização – coisa que já começou a ocorrer a partir de uma tarifa externa com o Mercosul e nos mercados internos – onde ainda há muito a ser explorado.

Ação: Como está a agenda para a implantação da Alca?
Graça Lima
: O calendário está mantido. Não há alterações. Ação: Haverá a implantação em 2005? Graça Lima: Em 2005 serão concluídas as negociações. A partir de abril, maio de 2003 será iniciado o que é certamente o fulcro desse quadro negociador: o acesso ao mercado. Até abril devem estar definidos os métodos e as modalidades dessa negociação. Em maio, elas começam para valer.

Ação: Na prática, o que o Brasil tem a ganhar com isso?
Graça Lima:
O Brasil tem sempre a ganhar. Há produtos do nosso interesse sobre ao quais existem ainda barreiras não-tarifárias, muito concretas, muito discerníveis. Nós temos produtos agrícolas que cabem em mercados como o europeu. Precisamos eliminar subsídios e outras práticas distorcidas de comércio. O próprio acordo interno precisa de disciplinamento maior, justamente para não se distorcer. São pontos que devem estar na agenda da Alca e da OMC.

Ação: O Brasil não corre o risco de importar bugigangas americanas?
Graça Lima:
Os bens de consumo mais ou menos duráveis não são importados dos Estados Unidos por países latino-americanos, mas por países asiáticos. O Brasil importa dos Estados Unidos produtos de boa qualidade.

Ação: Mas não há riscos de se importarem produtos sem necessidade?
Graça Lima:
Ninguém importa nada de que não tenha a mínima necessidade.

Ação: Nem para cumprir acordos comerciais?
Graça Lima:
Não há nenhuma obrigação de importar.

Ação: Há obrigações políticas nesses acordos?
Graça Lima:
Não, nenhuma. Nem políticas, nem econômicas. Você não é obrigado a importar, mesmo que compre à tarifa zero. Você pode vir a sucumbir a determinadas tentações por razões psicológicas. O comportamento do consumidor é muito difícil de se analisar.

Ação: O senhor já se sentiu pressionado por alguma questão psicológica nessas negociações?
Graça Lima:
Não, não sofro disso. E nunca haveria essa possibilidade, porque esses acordos são de grande abrangência. Eu trato de setores, indiscriminadamente. O correto é, portanto, não ser discriminatório e proceder nessas negociações em termos éticos, sem favorecer alguns em detrimento de outros. É muito difícil determinar, sobretudo em um segmento de cadeia produtiva, qual o setor que vai ter uma tarifa maior ou menor.

Ação: Dizem que o Mercosul está dando os últimos suspiros. O senhor concorda?
Graça Lima:
Acho sempre um pouco de exagero. De acordo com alguns analistas, o Mercosul estaria dando os últimos suspiros desde 1999, quando mudou o câmbio no Brasil. No entanto, o Mercosul está vivo. Tem passado por abalos, por algumas crises, principalmente em razão da situação que está vivendo a Argentina. Foram tomadas medidas unilaterais que afetam o Mercosul diretamente, sobretudo no comércio com o Brasil. Há tentativas de se corrigir determinadas situações. Não sei se medidas comerciais seriam satisfatórias para neutralizar o impacto do câmbio. Preferia que medidas cambiais pudessem ser tomadas. Não se pode falar em agonia do Mercosul porque o comércio continua existindo. E é um comércio até bastante favorável para a Argentina. Temos superávit com a Argentina.

Ação: É difícil negociar com o ministro Domingo Cavallo?
Graça Lima:
O ministro da economia da Argentina, como no caso do Brasil, não é o responsável direto pelo Mercosul.

Ação: Mas ele interfere...
Graça Lima:
Porque ele é responsável pela economia e, de certa maneira, isso abrange também os próprios acordos comerciais. Há também tendências um pouco divergentes ou, pelo menos, não convergentes. Isso também dificulta o diálogo entre Brasil e Argentina – que é sempre fundamental para determinar possíveis avanços que possa ter o Mercosul ou para encontrar soluções para essa crise. É uma crise sobretudo de um dos países membros, que está diante de determinados impasses em matéria de crescimento, de competitividade.

BRASIL EXPORTADOR
Ação: O Brasil tem uma política de exportações consistente?
Graça Lima:
É impossível você estar no mercado internacional e ficar totalmente imune às suas variações, às suas fúrias. Todos são afetados quando os grandes países deixam de crescer e sofrem desaceleração econômica. Podem ser países emergentes, de economias médias, menores. O Brasil tem a vantagem de não ser dependente de nenhum país: nem dos Estados Unidos, nem dos integrantes da União Européia, nem do Japão. O problema é que temos poucos produtos para exportação. Daí as receitas cambiais serão altas, como em outros países.

Ação: Na área de exportação, qual é o grande desafio para o Brasil?
Graça Lima:
O desafio para o Brasil não é do lado exportador, mas do lado produtor mesmo: gerar oferta, com produtos de maior valor agregado, capazes de gerar maior receita cambial. Para isso, é necessária uma mobilização da sociedade – mais investimentos, mais poupança interna, para que o País não fique na dependência de fontes do exterior e possa adquirir crescimento sustentado das exportações. O desafio de qualquer país é investir para gerar mais produção. O comércio contribui para a diminuição das desigualdades sociais, que ocorrem na nossa distribuição da renda.

Ação: Nesses mercados globais, qual deve ser o papel do Banco do Brasil?
Graça Lima:
O BB sempre foi e continuará sendo um agente financeiro importante, com programas que possam facilitar o financiamento de exportações em determinadas comissões. Há uma necessidade de securitização maior, que é muito importante para o próprio financiador. Essas questões podem ser facilitadas com juros mais baixos, com acesso maior dos agentes econômicos exportadores ao crédito.

Ação: Há diferenças de tratamento entre os parceiros do mercado global?
Graça Lima:
Se estamos falando de Alca, estamos falando de comércio, independentemente dos parceiros. O mesmo se aplica à União Européia, ao Japão. A missão do Brasil é não discriminar seus parceiros. Não me aflige minimamente que o Brasil possa negociar com os Estados Unidos, certamente o nosso maior parceiro individual, e também ter um acordo com as mesmas vantagens para seus outros parceiros importantes.

Ação: Mas acontece de um país se sair melhor do que outro nas negociações...
Graça Lima
: Por isso estamos negociando simultaneamente com todos e temos a nossa referência maior que é a OMC, um sistema multilateral de comércio. Ação: Com quem o senhor acha mais fácil conversar? Graça Lima: Em negociação comercial não há muita facilidade. Mas desde que você esteja negociando de boa-fé e as propostas sejam legítimas a você, criam-se expectativas favoráveis, independentemente do estilo do negociador ou do próprio país. Em maio de 1999 – antes, até, se não me engano – tivemos negociações muito difíceis para a aceitação do regime automotivo brasileiro. Ao Brasil, interessava que o regime não fosse questionado na OMC. Para isso, negociamos separadamente com os Estados Unidos, a União Européia, o Japão e a Coréia. E tivemos sucesso.

Ação: Com a implantação da Alca, fala-se em dolarização da economia. O senhor concorda?
Graça Lima:
Não tem absolutamente nada a ver. O Brasil tem um regime cambial flutuante, caminho encontrado para os problemas de reservas cambiais. E isso não trouxe recrudescimento da inflação, portanto, teve êxito. Hoje, a tendência é o exportador ter maior competitividade, alavancar operações. Isso também estabelece uma barreira natural, pelo preço de determinadas exportações, a ponto de haver pressão de indústrias para a redução da tarifa. Mas isso não tem a ver com moeda. Você poderia sim, no futuro, no âmbito do Mercosul, ter uma moeda única, mas suspeito de que não seria o dólar.

Fonte: Agência ANABB