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ANABB

Entrevista - Armínio Fraga

"FMI é o melhor dos mundos", diz Fraga - O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, diz não blefar em negociações de qualquer espécie


Em 07.11.2001 às 00:00 Compartilhe:

Armínio Fraga FMI é o melhor dos mundos
Por Dani Borges

O presidente do Banco Central, Armínio Fraga, diz não blefar em negociações de qualquer espécie. Mas fica desconcertado quando perguntado se blefa ou não. Gargalha até. Também enrubesce. Com ares de informalidade e nó frouxo de gravata, Fraga recebeu com exclusividade a equipe do Ação na sede do Banco Central, em Brasília. Era pouco mais das 11 da manhã quando o economista chegou ao BC, acompanhado de um assessor e de um segurança. Também nessa hora a equipe da ANABB descia do carro. No tempo que durou a subida no elevador até o 20º andar, Fraga adiantava o tom da entrevista. Eram sete pessoas no elevador. O fotógrafo carregava uma bolsa com pelo menos sete quilos de equipamento fotográfico, que não foi revistada. Polidamente, Fraga pediu à equipe que aguardasse. Dez minutos mais tarde, chamava, ele mesmo, para a entrevista na sala de reuniões da presidência do Banco Central.

O presidente falou sobre a independência da instituição, as críticas à política cambial, a crise argentina e o Banco do Brasil. "A tendência do BB é modernizar-se e ampliar a atuação no mercado, com uma política voltada ao lucro e à gestão de políticas públicas", defendeu. Para sobreviver às oscilações do câmbio, Fraga procura manter o bom humor. Até mesmo com o ministro da Economia da Argentina, Domingo Cavallo, ele faz o tipo bom moço: "Cavallo está passando por um momento difícil", contemporiza. Já o estilo espirituoso, admite copiar do presidente Fernando Henrique. "O presidente mantém um certo espírito positivo no trato das coisas, mesmo nos momentos mais difíceis". É mesmo difícil duvidar do otimismo de Fraga. Ao Congresso Nacional, reserva muitos elogios. "Nosso Congresso vem demonstrando uma capacidade de resposta muito boa". A situação melhora quando o ex-diretor da Soros Fund Management - cujo presidente é o megainvestidor internacional George Soros - fala do FMI. " Para mim, o Fundo é o melhor dos mundos".

Ação: A independência do Banco Central é um assunto sempre discutido, que agora está no Congresso. Qual a sua opinião sobre o assunto?
Fraga: Acho forte a palavra “independente”. Não é bem isso. O que se deseja é um projeto que dê ao Banco Central foco em sua atuação para evitar justamente o que aconteceu com a saída da dupla Campos e Bulhões (respectivamente Roberto Campos e Octávio Gouvêa de Bulhões. O primeiro, que faleceu em outubro deste ano, elaborou o Plano de Ação Econômica do Governo que definiu a criação do FGTS, do Sistema Financeiro de Habitação, do Conselho Monetário Internacional e do Banco Central). Quando os dois saíram, houve uma fragmentação dos objetivos do BC. Por isso, durante muito tempo, a instituição deixou de cumprir com as missões de defender o poder de compra da nossa moeda e de zelar pela estabilidade e solidez do sistema financeiro. A idéia da PEC 53, que propõe a revisão do artigo 192 da Constituição, tem o objetivo de dar mais transparência à atuação do Banco Central. Os objetivos a serem alcançados seriam dados pela sociedade ao BC, que teria autonomia para persegui-los – mas não independência para defini-los. A emenda me parece perfeita. Abre espaço para que as propostas possam vir do Congresso.

Ação: Como o senhor avaliaria a atuação do nosso Congresso Nacional?
Fraga:
Nosso Congresso vem demonstrando uma capacidade de resposta muito boa. Nem sempre quando vivemos o dia-a-dia e acompanhamos pelos jornais a dinâmica interna do Congresso, das brigas, das disputas, dos problemas, conseguimos nos lembrar do quanto foi feito ao longo dos últimos sete, oito anos. Tantas reformas difíceis foram feitas, como a da Previdência. Minha visão sobre o Congresso é positiva, mesmo não sendo do ramo.

Atuação do BB
Ação: Como deve ser a atuação do Banco do Brasil no mercado?
Fraga:
O Banco deve consolidar sua base e, a partir daí, atuar como ente comercial, com fins lucrativos. Isso exige eficiência de gestão, o artigo mais importante do BB – que possui tradicionalmente um corpo funcional que entra por concurso e é disciplinado, qualificado. Essa atuação é fundamental: sem ela, o futuro é incerto. A gestão de políticas públicas também tem um histórico importante no Banco do Brasil e deve ser conduzida sem prejuízos para o Banco. Ou seja, se as políticas públicas têm custos, eles devem ser parte do Orçamento da República. É uma avaliação muito simples de como um governo deve funcionar.

Ação: Dá para conciliar lucros com a gestão de políticas públicas?
Fraga
: Na minha opinião, é fundamental que se concilie. A política pública é assunto de orçamento, de alocação de recursos escassos.

Ação: E o Tesouro deve bancar isso?
Fraga
: Certamente. Faz parte da democracia discutir de forma aberta o que fazer com o dinheiro. Quem é brasileiro sabe disso, é óbvio. Não adianta tapar o sol com a peneira e achar que se tem mais dinheiro do que há na realidade. Temos de analisar com realismo o quanto temos e gastar os recursos da melhor maneira possível, sob pena de recairmos na doença crônica da inflação, da hiperinflação. O Banco do Brasil pode preservar a sua solidez e oferecer o melhor serviço à sociedade, trabalhando com o máximo de eficiência possível. O melhor incentivo para se trabalhar de maneira eficiente é o lucro. Banco tem de estar voltado para gerar lucro.

Ação: A troca dos chamados "títulos podres" por "títulos bons" resolve a situação do BB?
Fraga:
Resolve a fotografia, mostra uma situação saudável. Mas é importante consolidar a mudança de funcionamento que vem ocorrendo no Banco do Brasil. Esse processo deve ser conduzido para que não se voltem a acumular prejuízos. Não é suficiente dizer, em um determinado momento, que se corrigiu o problema, porque ele pode surgir outra vez. Nessa nova ênfase da gestão, separam-se os aspectos de atuação comercial – com fins lucrativos – dos aspectos de políticas públicas.

Ação: O índice de eficiência do BB é suficiente para concorrer com bancos privados?
Fraga:
Em muitas áreas, sim. Não diria que esse trabalho está concreto, consolidado. Ainda temos um caminho a percorrer, mas houve um claro aumento de eficiência. Não foi nos últimos dois, três anos. A tendência do Banco do Brasil é de modernização, de ajustes, de cuidado com custos.

Crise argentina
Ação: Há três semanas, a televisão exibia imagens em que o senhor e o ministro Cavallo, da Argentina, cumprimentam-se de maneira muito cordial. Depois ele declarou que não dá para negociar com um país que muda o câmbio a toda hora...
Fraga:
É um grande desafio para o governo e para o povo argentino passar por três anos e meio de recessão com uma taxa de 17% de desemprego. Nesses momentos, é preciso haver uma certa compreensão – sem, obviamente, deixarmos de lado os interesses do Brasil. Temos de entender que, às vezes, as pessoas procuram desabafar.

Ação: O senhor fala como se fosse o terapeuta do ministro Cavallo.
Fraga:
Eu o conheço. Temos um bom relacionamento. É um homem muito talentoso, determinado. Está vivendo um momento difícil.

Ação: As críticas de Cavallo sobre as freqüentes mudanças no câmbio são as mesmas de setores internos da economia brasileira...
Fraga:
O câmbio flutuante funciona como uma espécie de amortecedor, mas não significa que a estrada fica livre de buracos de repente. A economia com câmbio fixo andava devagarinho. Foram muitos os momentos difíceis da década de 90, mas não tão difíceis quanto o atual. A taxa de juros saía de 20% e ia para 30%, 40%. As fases de maior ansiedade, de choque, acabavam pipocando como um sintoma em algum lugar. Com a taxa de juros subindo para 40%, como aconteceu conosco algumas vezes, o problema aparecia de outra forma. Tinha viés recessivo maior.

Ação: E hoje?
Fraga:
Hoje é verdade que o câmbio tem flutuado bastante. Mas o câmbio flutuante tem suas compensações. Este foi um ano de pouca sorte para nós. Não sou de reclamar da sorte, não é meu estilo pessoal, mas é preciso entender isso. Começamos o ano com ruído político: a dramática situação da Argentina, a crise da energia, a forte desaceleração global. Os ataques terroristas ainda introduziram uma mudança de comportamento para uma extrema aversão ao risco. Foram choques de grande magnitude. Com tudo isso, o País ainda pode crescer 2% neste ano. No primeiro trimestre de 2001, tivemos a maior taxa de investimentos dos últimos vinte e poucos anos: 24,7% do PIB. É aquele negócio do copo pela metade. Depende como se olha: pode estar meio cheio ou meio vazio. É bom concluir que o Brasil está lidando com esses choques de maneira razoável.

Ação: Desde que assumiu o BC, qual foi o momento mais difícil?
Fraga:
A situação em 1999 era de grande incerteza. Não se sabia o que iria acontecer com a inflação, com o crescimento. As expectativas eram extremamentes pessimistas, negativas, na verdade. Havia um certo realismo nessas avaliações da época. Previa-se uma queda no PIB de 4%, os menos arrojados previam queda de 2%. Havia aquele ponto de interrogação em relação à inflação. Nós abandonamos a âncora cambial, ou fomos abandonados por ela. Buscávamos uma nova âncora que acabou sendo esse sistema de metas para a inflação. Passamos um tempo realmente flutuando e desancorados. Passamos por fases de muito medo de que a coisa poderia não se estabilizar. O quadro atual também não é dos mais favoráveis. Temos uma base sólida, financeira ou cambial, mas fomos atingidos por choques igualmente poderosos. É difícil comparar, mas eu creio que os momentos iniciais de 99 foram mais difíceis.

Ação: O que o senhor acha de o Garotinho (governador do Rio de Janeiro pelo PSB e pré-candidato à presidência da República) dizer que o País pode crescer 8% ao ano?
Fraga:
É um bom sonho. Podemos trabalhar para construir isso. O País vai ter de poupar mais, investir mais. Haverá muito suor até chegarmos lá. É um número difícil de sustentação a longo prazo. Isso está mais na categoria de sonho do que qualquer coisa. Mas é bom sonhar, a gente deve sonhar alto.

Negociações e blefes
Ação: O embaixador Graça Lima diz que tem muito de "drama e de teatro" em negociações internacionais.
Fraga:
Não tenho a habilidade de Graça Lima porque ele conduz esse processo já há algum tempo. Mas a minha experiência de negociação é de quando fiz parte da equipe que negociou a dívida externa, em 1991 e 1992 (quando era diretor do BC, no governo Collor). Na minha vida particular também participei de negociações. A coisa mais difícil é entender o que realmente importa para o outro lado, assim como o outro lado está tentando entender quais são as nossas fichas, o que estamos dispostos a apresentar.

Ação: Tem muito blefe nas negociações?
Fraga:
É natural que haja algum blefe aqui e acolá. Não é um aspecto particular em negociações globais de comércio. Nossa postura tem sido bastante construtiva nos últimos anos. Temos muito a ganhar negociando com a União Européia e com a América do Norte. Os sinais que o Governo tem dado são de muita clareza para a comunidade Européia. De um lado, nos beneficiaríamos de mercados mais abertos para os nossos produtos, principalmente na área agrícola. De outro, a integração do Brasil na onda de progresso tecnológico e de produtividade – que vem tomando conta do mundo – permite nosso acesso ao que existe de melhor no planeta. Hoje não é possível engatar nosso vagão nesse trem do crescimento acelerado sem um processo de integração bem negociado, inteligente.

Ação: O senhor já blefou?
Fraga:
Pouquíssimo. Tudo o que falo é sério. (risos)

Ação: Mas, rindo assim, sempre fala sério?
Fraga:
Esse tipo de pergunta enfraquece a gente nas negociações. (risos)

Ação: É verdade que o senhor come cenoura crua todo dia?
Fraga:
Nem me lembro de como isso começou, acho que foi lá no Rio. Alguém me perguntou se eu queria uma fruta, uma espécie de lanchinho durante o dia. Eu devo ter dito: "Ah, eu gosto de comer uma cenouras também". Aí me arrumaram lá um pratinho de cenoura e a coisa pegou. Agora, todo dia como umas cenouras.

Ação: O presidente da República costuma dizer, de maneira positiva, que o senhor é "pouco cerimonioso". Como é o relacionamento pessoal com Fernando Henrique? Fraga: Trato o presidente com muito respeito, mas com muita objetividade. Uma característica dele que eu procuro que seja minha também é manter um certo bom humor, um certo espírito positivo no trato das coisas, mesmo nos momentos mais difíceis.

Ação: A espirituosidade do presidente às vezes o coloca em situações difíceis e saem declarações infelizes como "vida de rico é chata". Isso já aconteceu com o senhor?
Fraga:
Já. São riscos intrínsecos às personalidades de cada um. Acho que a gente tem de aprender a administrar isso. Não reprimir, mas direcionar um espírito mais positivo, mais aberto para produzir mais, para atingir os objetivos. BOX A imperatividade do FMI Como o senhor avalia a política de negociação do Brasil com o FMI? Se o FMI não existisse, nós teríamos de inventar um. Para nós, o Fundo tem sido muito bom, tem-nos dado apoio nos momentos mais difíceis, como quando o financiamento seca. O FMI tem apoiado políticas que não são nossas. Ele é o melhor dos mundos, tem sido capaz de nos ajudar a evitar a recessão, a administrar melhor esses momentos de crise. Eu sou um dos que vê as negociações com o Fundo com muita tranqüilidade. Porque o diagnóstico que nós tínhamos de problemas fiscais é nosso, não é do FMI. A leitura de que nós temos de levar a sério a questão da inflação é nossa, não é imposta pelo FMI. O que o Fundo faz é nos financiar nos momentos em que o dinheiro seca. Isso é bom para o País. Para a Argentina, parece que a fonte do FMI já secou. O senhor acha que o Brasil também corre esse risco? Não conheço o teor interno das discussões do FMI com o ministro Cavallo. Por isso, o também da sua pergunta não posso comentar. Para nós (Brasil), o programa com o FMI continua nos trilhos. Sacamos recentemente US$ 4,7 bilhões, e ainda temos pouco mais do que US$ 10 bilhões à nossa disposição. Isso nos ajuda administrar essa situação de turbulência. O Brasil vai precisar pedir mais dinheiro ao FMI? Na minha opinião, não.

Fonte: Agência ANABB